Fone:

49 3245-2243

Text Size
Ter, 26 de Outubro de 2010 17:23

Emprego de cães em praças desportivas.

Escrito pelo Administrador
Qualifique este item
(0 votos)
Está (quase) tudo errado!
Emprego de cães em estádios de futebol
Fico triste quando vejo um cão sendo empregado de maneira errada. Hoje (16 de outubro de 2010) ao assistir uma partida de futebol pela televisão fiquei estupefato ao ver um cão latindo, mostrando os dentes, doido para morder um grupo de jogadores que comemoravam um gol e o condutor ali, parado, achando aquilo bonito. Ele deve ter pensado: “se esses caras acham que só porque ganham mais de R$ 200 mil por mês podem tudo, vão ver se chegarem mais perto. Meu amigo vai mostrar porque está aqui!”.
Quantas vezes já assistimos aos jogos de futebol, por exemplo, do Campeonato Brasileiro e notamos diversos cães ao redor no campo com o propósito de evitar e/ou inibir a invasão de torcedores. Mas, alguém aí já se perguntou por que ainda os cães são empregados dessa maneira? Está correta essa aplicação?
Se alguém tentar invadir o campo de jogo o policial deve-se utilizar o cão? Se alguém conseguir invadir o campo de futebol o policial poderá empregar o cão contra esse cidadão? Então por que ainda as polícias persistem nesse equivoco tático?
Não estou aqui defendendo a retirada dos cães das praças desportivas. Estou apenas questionando a forma como eles são empregados aqui no Brasil. O estatuto do torcedor é atualmente o maior inibidor de invasões de torcedores nos campos de futebol. Engana-se quem pensa que é atribuição do policiamento ser o principal fator de desmotivação (intimidação) dessas ações.
Alguém já pensou nas conseqüências de uma mordida de um cão quando um jogador que, ao comemorar um gol, vai em direção aos torcedores? Algum comandante de policiamento já imaginou o pepino que será quando um desses cães “altamente controlados e adestrados” morderem um jogador ao utilizar aquele espaço atrás do gol para aquecimento e alongamento? A situação é muito séria!
Quando se fala em emprego de cães há dois fatores desencadeadores de problemas: improviso e falta de metodologia. Nota-se que o emprego de cães pelas polícias brasileiras está permeado por esses fatores. Digo isso com tranqüilidade porque vivi e vivo dentro da cinotecnia policial. Conheço inúmeros canis policiais pelo Brasil afora, bem como, conheço canis policiais de outros países.
No Brasil estamos em um período de transição. O que se faz aqui ainda, quando o assunto é emprego e treinamento de cães policiais, é aquilo que era praticado há mais de 30 anos em outros países. Infelizmente, a cinotecnia policial está um pouco defasada quando comparada a de países como Estados Unidos, Espanha, Portugal, Chile e Argentina. Mais isso é assunto para outro momento!
Voltando à discussão sobre o emprego de cães em estádios de futebol, nota-se que, ainda há muito improviso e ausência de metodologia. Nos campos de muitos países da Europa e também da América Latina é vedado a permanência de cães ao derredor do campo de futebol. Então, nesses países não se empregam cães em praças desportivas? A resposta é simples, sim, eles empregam cães. Não da forma que se faz em praticamente todos os estádios de futebol do Brasil.
Em Portugal, por exemplo, normalmente é destinado um local dentro do estádio para a permanência dos binômios. Estes apenas são empregados no momento de uma grave perturbação da ordem. Um exemplo bem claro de aplicação de cães seria naquele evento crítico ocorrido no ano de 2009 no estádio Couto Pereira no jogo ocorrido pelo Campeonato Brasileiro entre Coritiba e Fluminense.
Vejo como uma atitude equivocada a colocação de binômios durante uma partida de futebol, principalmente, pelo nível de adestramento (controle) de boa parte desses cães. Colocar um cão apenas para assustar, inibir ou prevenir invasões de campo é, no mínimo, uma ação que vai de encontro com a técnica policial.
Como sei que esse emprego vai continuar, faz-se necessário algumas mudanças quanto à utilização dos binômios em praças desportivas. Diante disso passo a fazer algumas considerações:
1. Tornar o controle (obediência) uma realidade. Não se pode admitir que um cão de polícia latindo em direção a jogadores que comemoram um gol ou querendo morder um gandula que se aproxima para pegar uma bola;
2. Os cães devem permanecer “desligados” durante o período que não são empregados. Isso evita um desgaste do cão;
3. Deve-se fracionar/dividir a equipe, de forma que haja um revezamento entre os cães empregados. Se, por exemplo, há dez cães sendo empregados, cinco ficam em stand-by e os demais são empregados. Após término do primeiro tempo de jogo ocorre o revezamento.
4. O cão deve ser visto como uma arma não letal, entretanto, mal treinado e mal empregado pode converter-se em uma arma letal;
5. Deve-se investir em treinamentos que simule o que os binômios irão encontrar em um evento do tipo;
6. Devem ser empregar dois policiais e um cão. O binômio deve ficar voltado para o público (torcida). O segundo policial deve estar voltado para o interior do campo de futebol, atento às movimentações nas proximidades do binômio;
7. Deve existir uma área de atuação livre ao redor do binômio. Locais apertados, sem espaço para movimentação do cão devem ser evitados. Se for inevitável o emprego, sugiro a utilização de focinheiras (adequadas para cães policiais);
8. Observar sempre o estado de guias e colares. O rompimento de uma guia poderá trazer grandes transtornos para o policial condutor;
9. Quando da utilização do binômio, o cão jamais deverá ser solto ou ser empregado com guia longa. Diversos cães já foram mortos ou gravemente feridos por serem empregados de maneira equivocada;
10. Investir em treinamento, equipamento e seleção de cães são maneiras de vencer esses grandes obstáculos.
As polícias militares brasileiras devem repensar de maneira séria, sem paixões ou bairrismos, o emprego de cães em praças desportivas, principalmente em estádios de futebol.
Acredito, piamente, que o lugar de cão, em situações normais, não é próximo ao torcedor e sim em local adequado dentro do estádio pronto para atuar em caso de necessidade. Os policiais devem possuir equipamento de proteção individual (EPI) para essas situações de controle de distúrbios civis (CDC), como capacete e perneira (caneleira) anti-tumulto, luvas, proteções pélvicas e torácicas.
Os eventos desportivos que em breve acontecerão no Brasil, como Copa das Confederações, Copa do Mundo e Olimpíadas contribuirão de forma definitiva para reformular o emprego de cães no Brasil.  A FIFA e o COI têm normas rígidas e exigem que os órgãos policiais se adaptem. Portanto, é melhor se antecipar!
José Antonio Lopes Cardoso
Capitão da Polícia Militar do ES / Especialista em treinamento de cães policiais
Está (quase) tudo errado!
Emprego de cães em estádios de futebol
Fico triste quando vejo um cão sendo empregado de maneira errada. Hoje (16 de outubro de 2010) ao assistir uma partida de futebol pela televisão fiquei estupefato ao ver um cão latindo, mostrando os dentes, doido para morder um grupo de jogadores que comemoravam um gol e o condutor ali, parado, achando aquilo bonito. Ele deve ter pensado: “se esses caras acham que só porque ganham mais de R$ 200 mil por mês podem tudo, vão ver se chegarem mais perto. Meu amigo vai mostrar porque está aqui!”.
Quantas vezes já assistimos aos jogos de futebol, por exemplo, do Campeonato Brasileiro e notamos diversos cães ao redor no campo com o propósito de evitar e/ou inibir a invasão de torcedores. Mas, alguém aí já se perguntou por que ainda os cães são empregados dessa maneira? Está correta essa aplicação?
Se alguém tentar invadir o campo de jogo o policial deve-se utilizar o cão? Se alguém conseguir invadir o campo de futebol o policial poderá empregar o cão contra esse cidadão? Então por que ainda as polícias persistem nesse equivoco tático?
Não estou aqui defendendo a retirada dos cães das praças desportivas. Estou apenas questionando a forma como eles são empregados aqui no Brasil. O estatuto do torcedor é atualmente o maior inibidor de invasões de torcedores nos campos de futebol. Engana-se quem pensa que é atribuição do policiamento ser o principal fator de desmotivação (intimidação) dessas ações.
Alguém já pensou nas conseqüências de uma mordida de um cão quando um jogador que, ao comemorar um gol, vai em direção aos torcedores? Algum comandante de policiamento já imaginou o pepino que será quando um desses cães “altamente controlados e adestrados” morderem um jogador ao utilizar aquele espaço atrás do gol para aquecimento e alongamento? A situação é muito séria!
Quando se fala em emprego de cães há dois fatores desencadeadores de problemas: improviso e falta de metodologia. Nota-se que o emprego de cães pelas polícias brasileiras está permeado por esses fatores. Digo isso com tranqüilidade porque vivi e vivo dentro da cinotecnia policial. Conheço inúmeros canis policiais pelo Brasil afora, bem como, conheço canis policiais de outros países.
No Brasil estamos em um período de transição. O que se faz aqui ainda, quando o assunto é emprego e treinamento de cães policiais, é aquilo que era praticado há mais de 30 anos em outros países. Infelizmente, a cinotecnia policial está um pouco defasada quando comparada a de países como Estados Unidos, Espanha, Portugal, Chile e Argentina. Mais isso é assunto para outro momento!
Voltando à discussão sobre o emprego de cães em estádios de futebol, nota-se que, ainda há muito improviso e ausência de metodologia. Nos campos de muitos países da Europa e também da América Latina é vedado a permanência de cães ao derredor do campo de futebol. Então, nesses países não se empregam cães em praças desportivas? A resposta é simples, sim, eles empregam cães. Não da forma que se faz em praticamente todos os estádios de futebol do Brasil.
Em Portugal, por exemplo, normalmente é destinado um local dentro do estádio para a permanência dos binômios. Estes apenas são empregados no momento de uma grave perturbação da ordem. Um exemplo bem claro de aplicação de cães seria naquele evento crítico ocorrido no ano de 2009 no estádio Couto Pereira no jogo ocorrido pelo Campeonato Brasileiro entre Coritiba e Fluminense.
Vejo como uma atitude equivocada a colocação de binômios durante uma partida de futebol, principalmente, pelo nível de adestramento (controle) de boa parte desses cães. Colocar um cão apenas para assustar, inibir ou prevenir invasões de campo é, no mínimo, uma ação que vai de encontro com a técnica policial.
Como sei que esse emprego vai continuar, faz-se necessário algumas mudanças quanto à utilização dos binômios em praças desportivas. Diante disso passo a fazer algumas considerações:
1. Tornar o controle (obediência) uma realidade. Não se pode admitir que um cão de polícia latindo em direção a jogadores que comemoram um gol ou querendo morder um gandula que se aproxima para pegar uma bola;
2. Os cães devem permanecer “desligados” durante o período que não são empregados. Isso evita um desgaste do cão;
3. Deve-se fracionar/dividir a equipe, de forma que haja um revezamento entre os cães empregados. Se, por exemplo, há dez cães sendo empregados, cinco ficam em stand-by e os demais são empregados. Após término do primeiro tempo de jogo ocorre o revezamento.
4. O cão deve ser visto como uma arma não letal, entretanto, mal treinado e mal empregado pode converter-se em uma arma letal;
5. Deve-se investir em treinamentos que simule o que os binômios irão encontrar em um evento do tipo;
6. Devem ser empregar dois policiais e um cão. O binômio deve ficar voltado para o público (torcida). O segundo policial deve estar voltado para o interior do campo de futebol, atento às movimentações nas proximidades do binômio;
7. Deve existir uma área de atuação livre ao redor do binômio. Locais apertados, sem espaço para movimentação do cão devem ser evitados. Se for inevitável o emprego, sugiro a utilização de focinheiras (adequadas para cães policiais);
8. Observar sempre o estado de guias e colares. O rompimento de uma guia poderá trazer grandes transtornos para o policial condutor;
9. Quando da utilização do binômio, o cão jamais deverá ser solto ou ser empregado com guia longa. Diversos cães já foram mortos ou gravemente feridos por serem empregados de maneira equivocada;
10. Investir em treinamento, equipamento e seleção de cães são maneiras de vencer esses grandes obstáculos.
As polícias militares brasileiras devem repensar de maneira séria, sem paixões ou bairrismos, o emprego de cães em praças desportivas, principalmente em estádios de futebol.
Acredito, piamente, que o lugar de cão, em situações normais, não é próximo ao torcedor e sim em local adequado dentro do estádio pronto para atuar em caso de necessidade. Os policiais devem possuir equipamento de proteção individual (EPI) para essas situações de controle de distúrbios civis (CDC), como capacete e perneira (caneleira) anti-tumulto, luvas, proteções pélvicas e torácicas.
Os eventos desportivos que em breve acontecerão no Brasil, como Copa das Confederações, Copa do Mundo e Olimpíadas contribuirão de forma definitiva para reformular o emprego de cães no Brasil.  A FIFA e o COI têm normas rígidas e exigem que os órgãos policiais se adaptem. Portanto, é melhor se antecipar!
José Antonio Lopes Cardoso
Capitão da Polícia Militar do ES / Especialista em treinamento de cães policiais
Última modificação em Ter, 26 de Outubro de 2010 17:37

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

Parceiros

  • StormBulls
  • Proplan
  • ASBRAC